Rompimento de barragem: morador denúncia contaminação de nascentes e 8 hectares de pasto e vegetação

Duas nascentes de córregos e 8 hectares de pasto e vegetação foram contaminados pelos rejeitos da barragem da empresa VM Mineração, que cedeu há 3 dias no município de Nossa Senhora do Livramento (40 km de Cuiabá).

A área atingida está dentro da Estância São Sebastião, onde a reportagem esteve para verificar a situação.

Sebastião Gonçalo Pereira Leite, 68 anos, é o proprietário da fazenda e diz estar revoltado com as notícias e posicionamentos da empresa e dos órgãos ambientais.

“Eles falam que não houve dano. Olha bem aí. Só tem lama. Aqui tudo era pasto formado. Nem as cercas sobraram”.

A lama tomou conta da área que era reservada para a pastagem dos animais e também invadiu a mata, chegando às nascentes do córrego Brejal e Mamoeiro.

“Agora não tem muita água, porque está na seca, mas quando começar a chuva, forma um leito que nem cavalo passa”.

E é justamente a proximidade do período de chuva que aumenta o medo de Sebastião. Ele diz que o material que escorreu da barragem da mineradora vai contaminar o leito do córrego e, assim, o gado não terá onde beber água.

“Fiquei sem pasto e sem água de qualidade para os animais. E este córrego deságua no Pantanal”.

O morador teme ainda a contaminação do poço que abastece sua casa.

Como estão as ações

Do limite da propriedade de Sebastião, é possível ver os caminhões da mineradora trabalhando. Eles estão construindo valas no entorno da lama, na tentativa de impedir que os rejeitos avancem em caso de novos incidentes.

A retroescavadeira, onde estava um dos trabalhadores, vítima do vazamento, ainda está enterrada. Apenas a pá pode ser vista.

Segundo funcionários da empresa, o operador da máquina foi arremessado com a força da onda de lama a uma distância de 300 metros. “Está vivo por sorte”.

Essa não teria sido a primeira vez que a mineradora causou danos na região. Sebastião conta que, há um ano, uma das lagoas vazou, mas era um material mais líquido.

Naquela ocasião, os córregos da região ficaram vermelhos devido aos resíduos.

Novas construções geram medo

Sebastião disse que uma nova represa está sendo construída mais perto ainda das fazendas.

“Não temos mais confiança de ficar aqui. E, como sobreviver sem ter como criar o gado?”.

O morador afirma que ele e a esposa querem negociar com o dono da mineradora e vender o sítio. O espaço não tem mais viabilidade econômica e eles estão sem condições psicológica de permanecer no local.

“Na hora da explosão, nós saímos correndo e não sabíamos como fazer. Mandei minha mulher correr para o lugar mais alto, mas ela parava para chorar e gritava o nome do nosso filho, que trabalha na mineradora”.

Ele conta que foi uma explosão muito alta e dava para ver claramente o monte de lama chegando. Também se ouvia muitos estalos.

“Acho que eram dos postes de energia, que ficaram rompidos. Eles arrumaram os fios apenas ontem”.

Dia do incidente

Após a barragem ceder, a esposa de seu Sebastião teve uma crise de hipertensão e ele precisou levá-la as presas ao hospital. Quando voltou, a terra dele estava toda mexida.

Segundo ele, funcionários com máquinas da mineradora entraram na propriedade dele para fazer as valas de contenção e quebraram as cercas.

O gado que estava no local conseguiu fugir e duas bezerras ficaram completamente cobertas de lama.

Outro lado

A empresa VM Mineradora informou, por meio de nota, que o dono da propriedade impediu o acesso às terras dele e, por este motivo, os danos não foram sanados.

Veja a íntegra da nota:

“A VM Mineração informa que 90% das obras mitigadoras foram concluídas com exceção da área que pertence Sebastião Gonçalo Pereira Leite, que impediu a entrada da equipe da empresa para construir os diques e realizar as medidas determinadas pela Agência Nacional de Mineração (ANM) e pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema).

Advogados da empresa protocolaram denúncia na Delegacia de Meio Ambiente sobre o caso. Importante ressaltar que o proprietário Sebastião Gonçalo Pereira Leite não autorizou a entrada dos técnicos depois que o dano já havia ocorrido. A empresa aguarda resposta das autoridades para concluir o restante dos diques.

Todas as informações sobre eventuais prejuízos serão levantadas e discutidas com a comunidade local. O principal dano foi provocado pela interrupção do fornecimento de energia elétrica, problema que já foi resolvido”.

 

 

 

 

Fonte: O Livre | Foto:Ednilson Aguiar

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