O rótulo da beleza

Polipropileno, poliestireno e quartenium-15. Houve uma época em meu trabalho com relações públicas que a primeira tarefa no meu dia era monitorar o que estava sendo dito sobre essas substâncias. As duas primeiras, mais comumente chamadas de microesferas de plástico, estavam na mira dos ambientalistas, enquanto as mães de bebês haviam declarado guerra ao sal de amônio quartenário.

Passando despercebido de boa parte do mercado consumidor de produtos de beleza, as partículas de plástico, aparentemente inofensivas, estão presentes em esfoliantes e no glitter que caem pelo ralo, não são retidos pelos sistemas de tratamento de esgoto e afetam toda a vida aquática e marinha. Já o quarternium-15, conservante muito presente em xampus infantis e outros cosméticos, considerado tóxico e alergênico, foi banido das fórmulas infantis. Não teve jeito, a indústria teve que se adaptar.

Vencida essa batalha, teve início outra insurgência: a dos cachos. No país da chapinha, crespas e cacheadas iniciaram um grito pela liberdade que culminou no movimento de análise de rótulos, classificando os produtos entre liberados ou não. Muito além de banir o formol, os cosméticos precisam ser livres de sulfato, corantes sintéticos, ftalatos, silicones insolúveis, parabenos, óleos minerais e petrolatos. Tudo para garantir a beleza, a forma e a saúde dos cachos.

E dentre todos esses nomes aparentemente complicados, o melhor é que seja 100% de origem vegetal e vai além: livre de crueldade animal. Começou com cachos, alcançou os lisos, quimicamente tratados e chegou até mesmo nas colorações. Mesmo grandes marcas de produtos para cabelos já se dizem veganas e a famosa lista do PeTa (Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais) deixou de ser restrita aos ambientalistas. O movimento de ler o rótulo, que começou restrito a alguns nichos de beleza, já se estende aos produtos corporais e maquiagens. Não está tendo jeito, a indústria está tendo que se adaptar.

Um movimento apenas pela beleza, ganhou ares de gentileza com o planeta. Diante disso, algumas marcas já começam a repensar as próprias embalagens. Sai o plástico, entra o vidro, o bambu, o papel e a logística reversa. Dentro da cadeia produtiva, a pegada deixada pela indústria no planeta também entra na conta e não terá jeito, a indústria vai se adaptar.

Outro dia, li alguém dizendo que o movimento da liberdade pelos cachos que colocou os derivados de petróleo na berlinda não faz tanto sentido, uma vez que a parafina, o petrolato mais comumente utilizado em cosméticos, ainda é uma das melhores substâncias para hidratar a pele e os cabelos. Por outro lado, o mesmo texto lembrava que pensar no bem da natureza era de longe o melhor argumento para evitar esses componentes.

Sempre admirei a indústria da beleza pela capacidade de inovar, se reinventar e sensibilidade em atender os anseios do mercado consumidor. Fato é que em nome da beleza, percebeu-se que ao ser mais gentil com a pele e os cabelos, naturalmente somos mais gentis com o planeta e a indústria da beleza pode se tornar o motor para que este movimento alcance outras cadeias produtivas. Ser ético e gentil com a natureza sempre vale a pena.

Juliana Carvalho é jornalista e mestre em Comunicação pela Université Stendhal.

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