Opinião

Verticalização ou celeiro?

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O atual êxito da economia mato-grossense não é uma resultante da divisão do estado como insistem alguns e nem uma obra do acaso. Ao contrário, foi planejado nos anos 70 com os Programas Especiais de Desenvolvimento Regional, como o Prodepan, Polocentro, Polamazônia, Polonoroeste e Promat. Na verdade, vem de antes, da década de 50 com a Marcha para o Oeste, depois Brasília e depois o Programa de Integração Nacional (PIN) com os tais programas de desenvolvimento.

 

Olhando de trás para frente as coisas ficam mais claras. Jovem recém-saído dos bancos teóricos da academia, com uma rápida, mas importante experiência no projeto do CPA em Cuiabá, o entusiasmo diante das possibilidades de intervenção real no processo de desenvolvimento da terra natal de certa forma empanava uma visão mais abrangente. A medida que o processo foi se distanciando no tempo, ficou cada vez mais nítido a coerência, a intencionalidade e, principalmente o sucesso daquele conjunto de medidas planejadas e implantadas de forma articulada com o estado e municípios.

Ocupar, estruturar, produzir, exportar e verticalizar: este é o roteiro claro de uma história bem-sucedida de desenvolvimento regional

Ocupar, estruturar, produzir, exportar e verticalizar: este é o roteiro claro de uma história bem-sucedida de desenvolvimento regional, aplicado com competência no Centro-Oeste, mas ainda não concluída em Mato Grosso. Em Mato Grosso do Sul e Goiás é bastante nítido o avanço da verticalização de suas economias dando sinais de que em breve alcançarão a primazia da economia regional.

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Em Mato Grosso, a história parece ter se estancado na etapa da produção primária, do slogan “Estado Celeiro do Brasil”, na qual se firmou como o principal produtor agropecuário nacional e um dos maiores do mundo, e ainda tem muito a produzir. O sucesso produtivo foi tão grandioso que o estado, ainda refém do modal rodoviário, se encalacrou no escoamento de sua produção fazendo com que a etapa da economia exportadora não tenha se concluído e continue sendo o único e principal foco de preocupação das lideranças produtoras, políticas e das autoridades governamentais. Comprometendo o futuro, a verticalização ficou à margem, quando devia ser o coroamento inicial de todo o processo. A verticalização é agregação de valor à produção, garantia de renda e empregos de qualidade, padrões mais elevados de vida, promoção urbana e o vestibular para novos voos civilizatórios.

Mato Grosso chegou a ser pioneiro no assunto quando ainda em 70 implantou seus primeiros Distritos Industriais pensando já nos frutos da nova agropecuária que começava a ser implantada. Depois com Dante, que arrancou a ferrovia das barrancas do Paraná e a trouxe a Mato Grosso, trouxe o gás e a Termelétrica, destravou a construção de Manso, viabilizou o Porto Seco, internacionalizou o aeroporto, tentou a ZPE de Cáceres e sua hidrovia, tudo isso pensando nas condições para a verticalização da explosão da economia primária já prevista. Mas tudo ficou travado. Enquanto isso Mato Grosso do Sul e Goiás agradecem e voam rumo à verticalização de suas economias e, se bobear, da nossa.

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Seguir o mesmo bom caminho, concluir as etapas e verticalizar antes que seja tarde. Aceitar ser celeiro nesta altura do campeonato é atraso. A logística, tão fundamental e urgente à economia exportadora, é também fundamental à verticalização. Fundamental para levar a produção, trazer insumos e mercadorias, e distribuir a produção pelos diversos polos urbanos estaduais onde pode ser consumida e beneficiada. É básico para verticalizar e para exportar.

 

Mato Grosso não pode mais ver a logística só como uma esteira exportadora, mas como a ferramenta chave para culminar um processo de desenvolvimento que não pode ficar pelo caminho em prejuízo de seu povo.

 

JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS é arquiteto e urbanista, conselheiro do CAU/MT e professor universitário aposentado.

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Opinião

O Filho morreu, e daí?

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Por Rui Matos

 “Tudo o que fomos permanece na despedida. O que juntamos é o que vai na partida”

Quando a voz de besouro do locutor da única rádio da pacata cidadezinha nos cafundós do interior rasgou a madrugada anunciando que já era quase cinco horas da manhã, Zé e Mané já estavam na pracinha do centro. Centro e periferia se confundiam, separados apenas por uma rua calçada com pedras irregulares.

Sentados no banco de cimento que ainda não estava marcado pelo cocô dos pombos, mantinham-se atentos ao que ouviam apesar do chiado que partia de forma impositiva de outro combalido rádio que descansava preguiçosamente sobre o balcão da padaria. Das duas faces da porta de madeira do estabelecimento, apenas uma estava aberta permitindo que a voz rouca com a notícia triste tomasse a rua junto com o filete de luz que clareava a calçada.

Era o anúncio da morte de Filho. Burburinhos já se formavam nas esquinas e os moradores debruçados nas janelas se encarregavam de espalhar a notícia que todos já sabiam.

– Perder o Filho foi triste, né?

– Deixe de ser Mané. O doutorzinho não está nem ai. Lamentar por quê?

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– Você se acha o Zé, né? Insensível. Ele tirou o Filho das ruas e o criou. Não foi assim? – questionou Mané com o coração em pedaços, após também quase encontrar a morte pela contaminação com o Coronavírus.

O sol já queimava o rosto e o lero-lero entre Zé e Mané continuava. A voz mansa deu lugar a gritos que saltavam das bocas sem receio de incomodar as senhoras que se amontoavam logo atrás para ouvir a blá-blá-blá. Foi quando Mané olhou sobre os ombros e tomou para si o controle da falação, fazendo o grupo se dispersar.

– Já viu o doutorzinho levar o Filho pra passear na praça?

– Putz! Não. Nunca vi. Mas acho que a culpa foi da Covid-19, que espantou quase todos das ruas – justificou com os braços abertos, enfiando a cabeça entre os ombros.

– Das poucas vezes que o vi com o Filho, o pobre coitado estava fedendo de tão sujo.

– Ô Mané!!! Foi a Covid que o deixou assim, todo meloso? Ou está se sentindo vítima por morar na periferia?

– Ora, ora! Como se morar no centro fizesse alguma diferença. Talvez tenha sido sim, a Covid. Vi pela televisão que muita gente morreu. Eu mesmo quase parti dessa vida. Logicamente que mudei minha forma de pensar e agir depois de tudo isso. Sobrevivi, né?

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– Então! – completou Zé com semblante de riso.

– Então nos preocupamos cada um por si e nos esquecemos do coletivo. Filho era parte dessa cidade e nos trouxe muitas alegrias. Estou errado?

– Errado não está, mas também não está certo. Afinal, Filho não foi mais importante do que qualquer outro finado durante essa pandemia – esbravejou ao se levantar, batendo a poeira da bunda com as mãos.

– Ao menos, Filho me fazia rir, brincava comigo. Até falava alguma coisa quando escapulia pelo portão, acho! – acreditou Zé, olhando Mané abrir a boca para interrompê-lo.

– Certamente o doutorzinho irá arrumar outro vira-lata. Filho morreu, e dai? Estamos vivos. A vida continua – sentenciou.

– E daí, que tudo o que fomos permanece na despedida. O que juntamos é o que vai na partida. A saudade fica, até mesmo a de um vira-lata. Que Deus o tenha.

 – Bora trabalhar, pois, sol madrugueiro não dura o dia todo – disseram juntos.

 Rui Matos é jornalista e escritor – Instagram: @rui.matos.escritor

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